A TERRA CHORA
A boca da terra se abre num esgar medonho, e nem se sabe se é de dor ou de fome. Não há suor em seus poros, não há lágrimas em seus olhos. Toda sua pele está ressequida e coberta de feridas, sulcos profundos, inumeráveis.
Ela olha para o céu, paralizada, moribunda. Não há ventos que a enganem, não há nuvens que a façam suspirar.
O céu é de chumbo. O sol castiga com impiedade. Seus raios, como o brilho de um milhão de olhos que fitam carregados de ira
No íntimo, com pesar, ela, a terra, chora.
Chora por sentir sobre sua pele o toque áspero de um pequenino par de pés que anda sem firmeza, que pára, que se abaixa, que a toca como se coçasse suas feridas, para em seguida caminhar novamente.
É uma criança, uma criança que vagueia em circulos, olhos sem o brilho que justifica a vida, rosto com as duras marcas que precedem a morte.
Ja não é capaz de sonhar com bolas ou aviões, viagens ou simplesmente passeios.
Seus pés e artelhos ja não se deslocam frenéticamente numa corrida livre pelos campos, pelas matas, subindo barrancos, saltando valas, impulsionados pelo espírito de celebrações da contagiante vida.
Ja não abraça o vento e rodopia em torno de si mesma como um pião vibrante a dançar numa ciranda.
Não sabe quem é. Não tem referencial ou promessas á que recorrer. Sofre calada, com a noção cruel, desumana e irracional de que não tem valor algum.
Em silêncio caminha, buscando algo para afastar a dor incômoda que que a assalta por dentro, que a desfigura por fora.
Mas ela não sabe, ah se ela soubesse quem é.
Se por uma única fração de segundo fosse soprada para dentro de sua mente em caos a verdade revolucionária de sua identidade.
A terra então, certamente haveria de tremer sob seus pés.
O céu enegreceria tão rápido de densas nuvens, que os animais se recolheriam aos seus ninhos, covís e abrigos, supondo terem sidos surpreendidos pela noite.
Pois então seus olhos se ergueriam para os céus, num olhar tão firme, tão puro, que os rais de sol pareceriam sombras.
E o seu coração explodiria no mais copioso, e dilacerante clamor que um ser humano ja fez ecoar sobre a terra. e o seus lábios se moveriam nesta prece ardente:
DEUS, DEUS, me ajuda meu Pai, meu Pai, me ajuda.
O Senhor ordenou minha vida.
E desde o ventre de minha mãe eu a amei. Com alegria eu a celebrei ansiando pela luz, pelas maravilhas das tuas obras, pois, em meu coração, alma e espírito, Tu ó Senhor, sussurravas, me envolvendo em doces, ternos e calorosos afagos de amor.
No silêncio da formação eu sonhei com um reino de amor, de vida contagiante; podia ver meus irmãos, meus pais, felizes em ininterrúpta celebração.
Um lugar perfeito e eterno.
Ansiosamente esperava para fazer parte, quando estivesse preparado, desta realidade paradisíaca.
Tomar então lugar neste sonho, e viver para te adorar.
Adorar e servir á Ti, ó meu Criador e Deus.
Mas tudo mudou, eu nem fui capaz de perceber onde as coisas se transformaram. Fui gerado num contexto de sonho, mas nascí nas entranhas de um pesadelo.
Que mundo é este, oh Senhor?
Os homens não te conhecem e em sua impiedade ainda se afagam com palavras tolas, chamando uns aos outros de bons.
Regam com hipocrisia a memória de seus mortos. Se intitulam nobres e quebram friamente suas leis.
Os mais honrados, seguidos e reverenciados, são incapazes de perceber Tua presença, que é tão gloriosa em todas as suas obras, e , leviana, estúpida e atrevidamente ousam fazer conjecturas, especulações com a divindade.
Deus, como é possível ter se tornado fato comum que um ser humano, criado à Sua imagem, sinta fome, frio, que seja aviltado pela nudez?
Será que não chegou ao coração e a mente de tão esclarecidos e sábios representantes da raça humana que quando alguém sente fome, frio ou qualquer tipo de aviltamento, é o Senhor, ó Deus, o Criador de tudo que há, que está sendo ultrajado?
Ah meu Pai, faze resplandecer o Teu rosto sobre a nossa terra; nos ensina a justiça, detém o martelo do opressor, cala a língua mercenária, que testemunha em favor dos intocáveis e perverte o direito dos que choram. Ilumina aos que tem o coração nobre para que não errem ao conduzir os que são errantes na alma.
Paizinho, eu sei que fui criado no dia da minha concepção. Todos os meus dias e sonhos, o Senhor é quem os deu a mim. E eu nascí pra te adorar, te conhecer e te obedecer.
Só o Senhor é o meu Deus.
Olha pra mim. Sê o meu socorro. Livra o meu coração de abrigar a revolta, de velar o ódio que pode envenenar minha alma, de me tornar insensível e não ser mais capaz de crer e confiar.
Olha pra mim, me desperte outra vez.
E enquanto aquela criança de rosto mirrado, de olhos profundos, de coração puro alçasse aos céus o seu clamor...
Um vento suave, poderoso, sopraria do Norte, e mansamente, empurraria nuvens. Nuvens que se ajuntariam, que pairariam, que dançariam, e que, finalmente, num pranto copioso, desabariam sobre aquela terra tão querida.
Uma terra que chora.
... na penumbra do coração ! Lino Aban
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