quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CRIATURA

As primaveras passaram, todas. Passaram diante dos olhos da criatura; que riu, que chorou, que imaginou coisas, que projetou seus sonhos, que aprisionou seus medos. E, que lançou rebentos, que compartilharam anseios e que herdaram dela esperanças e traumas.
Foram-se os verões como um exército em marcha de vitória. Passando rápido, pisando firme, celebrando em brados. Pois, a força e o vigor assanham o coração e ele faz vir para os lábios a dança sonora que a alma compõe. As palavras bailam então em rítmos que alucinam, que embalam, que desafiam, que fazem esmorecer, que ordenam vida, que determinam morte.
Seis mil outonos não bastaram para fazer cair as folhas que esconderam a imagem do que um dia houvera sido perfeito, a semelhança no que um dia ja fora puro.
Oh, temerária criatura, está além do alcance dos olhos e do espírito a âncora do seu livramento.
Quando nos seus dias o outono te despir dos pesos e ornamentos com os quais os séculos te vestiram, te enganando e te fazendo provar ilusões; voce perceberá que és mais que criatura. Perceberá que és um ser de matéria que se corrompe, de emoçoes que te conduzem, de espírito que tem o dom da imortalidade. És um ser que se extraviou, mas que ja foi encontrado. És um ser cujo nome é constante e obstinadamente chamado às estações que se repetem.
Ja sofrestes o rigor de invernos que te endureceram e te fizeram parar. Mas,... atenta para ti mesmo e encontrarás respostas que te saciarão.

Como afinal, pudestes sobreviver, sendo tão frágil?
Todas as forças que te cercam são maiores e mais fortes do que tu. No entanto, fostes inspirado sempre a dar passos que te conduziram a vitórias, que te colocaram sobre as circunstâncias que eram sempre tão adversas.
Atenta ao seu redor, estás cercado e acuado por espectros que não entendes e nem contra os quais podes prover-se de proteção.
Ainda assim, continuas a galgar as escarpas que te amedrontam. Tens se deliciado com as carícias excitantes de suas vitórias, pois tens sobrepujado a todas as suas adversidades, ainda que, mesmo aos seus olhos, sejas tão prisioneiro de suas próprias limitações.
Sem asas tens voado mais rápido que os ventos que circundam a terra. Quando falas, conquanto não possas sequer fazer soar sua voz mais alto que os animais que te cercam, em toda terra, porém, pode-se fazer ouvir por toda sua grande tribo.
Teus olhos, limitados por sua estrutura física, humana, incapazes de captar a nitidez de imagens distantes, não te fizeram no entanto sucumbir à miopia da escuridão do desbravamento, e, com inteligência e graça tens observado o movimento esplendoroso de astros, de corpos celestes na imensidão do firmamento e além dele.
Separastes os universos que se aglomeram em sintonia perfeita nos corpos que, de pequenos que são, não se podem pescerber. Separaste-os e a cada um deles destes um nome.

Atenta para a simplicidade das leis que te cercam, sensibiliza-te à soberania imutável do poder vivo que as mantém e abre teus ouvidos á voz do que é absoluto e perfeito e que o tempo todo fala e se relaciona contigo.

Vozes se levantam e se alternam como ondas às paredes de seu coração. Cogitações, direções e raciocínios lhe são propostos. Alguns, totalmente loucos, outros, sutis, tentadores e enganosos.Há ainda aqueles, que, de complicados que são, parecem afrontar-te com a revelação da ignorância e estupidez, se á eles não deres ouvidos.
E então passas os teus dias lutando com fantasmas que se entrelaçam nos seus pensamentos, que escarnecem de seus medos, que lisonjeiam-te com setas carregadas de veneno, enquanto dançam sobre as lápides que ja prepararam para os teus sonhos.

Criatura, criatura, ouça a voz que fala contigo no sopro do vento. Ele traz o eco de todas as vozes que ja se ergueram um dia no tempo para trazer-te à luz e revelar-te a vida.
Não vês que tens sido algemado por um poder e uma força que ja foram destronados, mas, que te dominam assentados sobre uma teia de enganos?
Nã dês ouvido à mentira, antes, abre teu coração á verdade.
O que não é real, como pode ferir-te tanto? E o que não tens contigo, como pode causar-te tanta dor?
O mal tem nome, e te odeia, pois ele sabe quem tu és e porque fostes criado. Fará tudo para se manter oculto, enquanto estenderá seu manto para te manter no escuro.

Abre teu coração, crê no que está escrito. Se crês ou não em um Deus que é vivo, por um momento, deixa de lado o que tu pensas agora.
Que tens á perder? Estás confuso e sofrendo muito. Não sabes quem és, de onde veio, para onde vais. Sabes apenas que sofres.
Abre os teus lábios e declara as palavras que podem te libertar.
_ Deus, estou perdido em mim mesmo. Não conheço o caminho. Senhor Jesus, se viestes mesmo para me salvar, eu te recebo como meu salvador. Se és mesmo Senhor, me submeto ao Seu senhorio. Se fui criado para te adorar, é assim que eu quero viver.

Oh, sim, abre os teus olhos, ó criatura, deixa de viver as estações prostrado entre as folhas e flores sem conhecer quem as plantou. Estendido sob o vento e o sol, sem ter do Criador o toque que refrigera, vendo as árvores e seus frutos, que caem, que desabrocham, sem perceber o maravilhoso enigma do chamado meigo, que se repete a cada aurora. Sentindo o frio da solidão e abandono, quando há um lugar cheio de calor e afeto, entre os braços fortes de um Pai, que ansioso te espera.
Atenta, sim, mais uma vez, atenta à sua volta. Invoca o Nome do seu Senhor e Amigo.
És criatura, mas Ele te transformará em filho. E serás com Ele, herdeiro de um reino de amor, de regozijo e glória.
Pois, o vento traz muitas palavras e com elas o gemido de todas as criaturas que choram por não saber quem e o que são,... mas á todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus.

Lino Aban Nov /. 2010