quinta-feira, 21 de julho de 2011

CREPÚSCULO DE UM SONHO


TEXTO II
Seus passos sempre foram dados numa direção clara, segura, sem desvios, sem titubeios. Seu olhar jamais demonstrou medo ou dúvida, suas palavras revelaram sempre, entre um clamor ou um sussurro, sua intenção firme, irrevogável. “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, que apedreja os que te foram enviados...” Discurso terrível pra se ouvir, como poderiam absorver tal sentença, eram seus discípulos, se alimentavam por suas palavras, se acostumaram com sua presença, se orientavam por seus movimentos. Dariam a vida por ele, sabiam agora, não havia uma outra razão pra viver. Seguí-lo, estar com ele, não havia vida além dessa existência, desse caminhar por aldeias solitárias, por estradas poeirentas, por acampamentos ao redor de cidades hostis..., não havia vida em qualquer lugar onde ele não estivesse. “Importa que eu seja traído, que seja entregue nas mãos dos sacerdotes e escribas, que me condenarão e me levarão aos gentios, que escarnecerão de mim, me açoitarão e me crucificarão ... “ Palavras terríveis de se ouvir. Não pode ser! Do que ele está falando? Há algo errado, não faz sentido. Suas mentes se recusavam trabalhar com tais especulações, tudo que assimilaram e sobre o qual estavam prontos á colocar as suas vidas se relacionava diretamente á sua presença com eles. Como poderiam conceber a continuação do que quer que fosse, sem ele. Será que o cansaço, que a oposição dos sacerdotes, dos lideres religiosos, haviam finalmente aberto uma brecha, uma ferida em suas emoções e ele começasse a se abater em seu espírito, falando de morte, de sofrimento, de suplício? Como poderiam ferir aquele que sarava feridas, ou impingir sofrimento á aquele que os demônios se submetiam? Como poderiam matar aquele que trazia de volta à vida, aos que já tinham sido tomados pela morte? Há algo errado, não faz sentido.
“Este é o meu filho amado, à Ele ouvi” Eles ouviram a voz, testemunharam sua glória, ouviram sobre o reino onde há um livro, dentro do qual seus nomes estavam escritos, viram o céu se abrir e o sobrenatural jamais visto antes adentrar o seu mundo, como o sopro natural da brisa de cada dia, transformando um pequeno cesto com cinco pães e dois peixinhos em um manan- cial de cujas entranhas brotavam, abundantemente ( como a vida que ele dissera trazer ) pães e peixes, centenas, milhares, o bastante para saciar uma multidão. Eles viram sua glória. E ela se mostrou outra vez, e outra vez, de novo... E então viram as multidões jogando suas vestes aos seus pés e as crianças correndo com ramos de palmeiras, que lançavam, adornando o caminho por onde passava, enquanto de todas as bocas ouviam o vibrar festivo, crescente, da aclamação calorosa que se fazia ouvir na cidade do grande Rei, não havia mais dúvida, as barreiras caíam finalmente, os religiosos teriam que reconhecer, como o próprio povo já o fazia agora, Ele era o prometido, o messias esperado, legítimo herdeiro e descendente real, linhagem de Davi.
Mas agora, outra vez, pareciam estar sob efeito de uma sonolência incompreensível, uma incapacidade de ver ou entender com clareza, ali estava Ele, novamente fazendo coisas sem sentido, como um servo comum, se cingia com uma toalha e lavava os pés de seus discípulos, e novamente falando de sofrimento, de solidão e morte, de abandono. Seus corações estavam estremecidos, não conseguiam acompanhar o significado profundo de suas palavras, só sabiam que elas lhes causavam uma tristeza de alma que os abatia. E Ele os chamou para uma vigília, foram ao monte, à um jardim onde um manto de opressão os mantinha cansados demais para permanecerem acordados , Ouviram sua voz, mas parecia distante, perceberam seus movimentos, o ruído de seus passos, mas, a expectação de algo ruim crescia á cada instante, e então, de repente, mergulharam no mais apavorante pesadelo do qual sequer, puderam algum dia imaginar. Uma turba se aproximou ostensivamente, armados de espadas e porretes, eles perceberam, de alguma maneira, que o mal já houvera sido determinado contra eles e seu Mestre, e num lampejo de coragem se aproximaram prontos para lutar, tendo mesmo, um deles se adiantado nessa disposição o bastante para ferir um dos oponentes. E até naquela situação, puderam testemunhar o poder maravilhoso daquele homem, no último milagre efetuado com o toque de suas mãos, ao estendê-las em direção á orelha ferida do seu agressor, para livrá-lo da dor e do sofrimento causado pela impetuosidade de seu discípulo mais afoito. – Não resistais ao perverso, Ele dissera. – E ao que te ferir na face direita, dá-lhe também a esquerda. Seus ensinos não eram só de palavras, Ele os vivia. E então, se cumpriam os acontecimentos, cada um deles, por ele mesmo anunciados, seus amigos, o deixaram, aterrorizados demais para permanecerem com ele. E como predissera, foi traído, foi vendido, foi entregue, o abandonaram, todos. O pastor fora ferido, as ovelhas, foram dispersas. E dos seus, mais chegados, mais queridos, amigos e discípulos, dois ou três, quem sabe, mais um ou dois, se atreveram a observar os acontecimentos, ainda que, ocultos pela multidão, e assistiram assim, sua condenação insana, o seu suplício lento , e a sua morte inglória.
Cenas terríveis de se ver, até os céus se recusaram mirar, um véu de escuridão encobriu o sol, não permitindo que seus raios refletissem parte daquele tormento. A sensibilidade que faltava aos olhos humanos, ao serem capazes de sustentar a visão de tal desatino, não era negada a natureza, e ela se cerrava, incapaz de contemplar. E nesse instante da história, pela primeira e única vez em todo registro da eternidade, a Vida se afastou da Vida. Não pela força da morte ou poderes do mal, não pela vitória aparente das trevas ou qualquer outra conseqüência inevitável, mas... tão somente, pelo amor. “ Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho unigênito...”

quarta-feira, 4 de maio de 2011

QUEM É ESSE?


                                                                          TEXTO I
Há dois mil anos atrás, um homem, jovem, começou a andar por sua terra natal, cidades, povoados, aldeias. Ele entrava nas sinagogas, passeava pelas praças, nos mercados, percorria os campos, atravessava desertos, caminhava pelas praias, se assentava no chão, dentro das casas... e falava, tinha uma mensagem em sua boca da qual falava, tão naturalmente quanto seu próprio respirar.
Ele dizia: - Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
E assim, pois, se manifestou diante dos homens a existência ímpar, nunca antes em alguém reconhecida e nem depois, integralmente em alguém reproduzida.
E este homem, único, inigualável, reconhecido em figura humana, histórico, acessível, magnificamente completo em toda essência do existir, esteve entre nós, e a nós falou com palavras que nos despertaram e nos fizeram perceber quem éramos, abrindo diante de nós a possibilidade da escolha, do retorno. Por isso sua voz, carregada de amor e autoridade, á repetir incansável
- Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
Suas palavras não eram dirigidas a uma raça distinta, nem a um povo específico, nem a uma tribo escolhida ou mesmo a uma estirpe privilegiada. Não, seu convite, sua conclamação era para todos, homens e mulheres de todas as raças, jovens, velhos, crianças de todos os credos. Todos precisavam se arrepender, se arrepender de seus caminhos contrários, de seus pensamentos egoístas, de suas escolhas profanas. De seus delitos e pecados.
As palavras em seus lábios, tinham o poder de decifrar o passado, elas não se apoiavam em costumes e tradições, em ritos e superstições, não se faziam impor através de medos, de ameaças, de alguma forma intimidatória de saber privilegiado, mas antes, trazia luz sobre as questões fundamentais, de tal maneira que todos os corações simples, podiam compreender e obedecer.
Sua mensagem não se limitava á sua geração, pois, ao iniciar sua jornada, escolheu dentre todos , doze homens que iriam andar com ele, que ouviriam sua doutrina, que veriam suas ações e reações frente a cada situação. Eles seriam testemunhas de suas palavras, de suas afirmações, de suas respostas, de seu comportamento, e, receberiam dele a incumbência de propagar o seu nome e a sua mensagem depois que ele tivesse partido.
E eles viram, e conheceram um homem que convidado á um casamento, transformou água em vinho, e encheu seus corações de uma sede que inflamava suas almas e que os fazia crer que haviam sido chamados á partilhar algo que transcendia a própria vida que eles conheciam. E caminharam com ele, dia após dia. Viram suas mãos tocarem em corpos doentes, atrofiados, devolvendo-lhes o vigor, a perfeição, enquanto com voz suave lhes revelava o dom supremo do saber; de que havia um Deus, que é Pai, que ama, que desejava salvá-los. Viram seu rosto impassível, sereno diante de um mar bravio, de ondas gigantescas e de um punhado de homens medrosos que clamavam por sua vida, e ouviram sua voz majestosa repreendendo toda esta fúria natural com uma simples ordem : - Quem é este? Perguntaram entre si. – Que até os ventos e o mar lhe obedecem? Quem é este, que encara o inferno, ao olhar além dos olhos de um miserável e subjugado ser humano, transformado em fera, acuado num campo de tumbas e lápides, prisioneiro indefeso de seres malignos, e o liberta das trevas, anulando a força das cadeias que o prendem, recebendo-o com amor e lhe dando a honra de enviá-lo como mensageiro e testemunha do seu poder? Quem é este? Indagavam .- Que se inclina publicamente e estende suas mãos á uma mulher, pecadora, surpreendida em flagrante adultério, digna de morte, e, que num repente, faz calar seus acusadores, confrontando-os com suas próprias faltas, e, amorosamente então, faze-a levantar-se, muito acima do nível do solo, na altura da dignidade que só um rei pode conferir a alguém, que esteja prostrado, e coloca diante dela a possibilidade de uma nova existência, sem fardos, sem ilusões, sem medos, sem culpas,... sem pecados.