TEXTO I
Há dois mil anos atrás, um homem, jovem, começou a andar por sua terra natal, cidades, povoados, aldeias. Ele entrava nas sinagogas, passeava pelas praças, nos mercados, percorria os campos, atravessava desertos, caminhava pelas praias, se assentava no chão, dentro das casas... e falava, tinha uma mensagem em sua boca da qual falava, tão naturalmente quanto seu próprio respirar.
Ele dizia: - Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
E assim, pois, se manifestou diante dos homens a existência ímpar, nunca antes em alguém reconhecida e nem depois, integralmente em alguém reproduzida.
E este homem, único, inigualável, reconhecido em figura humana, histórico, acessível, magnificamente completo em toda essência do existir, esteve entre nós, e a nós falou com palavras que nos despertaram e nos fizeram perceber quem éramos, abrindo diante de nós a possibilidade da escolha, do retorno. Por isso sua voz, carregada de amor e autoridade, á repetir incansável
- Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.
Suas palavras não eram dirigidas a uma raça distinta, nem a um povo específico, nem a uma tribo escolhida ou mesmo a uma estirpe privilegiada. Não, seu convite, sua conclamação era para todos, homens e mulheres de todas as raças, jovens, velhos, crianças de todos os credos. Todos precisavam se arrepender, se arrepender de seus caminhos contrários, de seus pensamentos egoístas, de suas escolhas profanas. De seus delitos e pecados.
As palavras em seus lábios, tinham o poder de decifrar o passado, elas não se apoiavam em costumes e tradições, em ritos e superstições, não se faziam impor através de medos, de ameaças, de alguma forma intimidatória de saber privilegiado, mas antes, trazia luz sobre as questões fundamentais, de tal maneira que todos os corações simples, podiam compreender e obedecer.
Sua mensagem não se limitava á sua geração, pois, ao iniciar sua jornada, escolheu dentre todos , doze homens que iriam andar com ele, que ouviriam sua doutrina, que veriam suas ações e reações frente a cada situação. Eles seriam testemunhas de suas palavras, de suas afirmações, de suas respostas, de seu comportamento, e, receberiam dele a incumbência de propagar o seu nome e a sua mensagem depois que ele tivesse partido.
E eles viram, e conheceram um homem que convidado á um casamento, transformou água em vinho, e encheu seus corações de uma sede que inflamava suas almas e que os fazia crer que haviam sido chamados á partilhar algo que transcendia a própria vida que eles conheciam. E caminharam com ele, dia após dia. Viram suas mãos tocarem em corpos doentes, atrofiados, devolvendo-lhes o vigor, a perfeição, enquanto com voz suave lhes revelava o dom supremo do saber; de que havia um Deus, que é Pai, que ama, que desejava salvá-los. Viram seu rosto impassível, sereno diante de um mar bravio, de ondas gigantescas e de um punhado de homens medrosos que clamavam por sua vida, e ouviram sua voz majestosa repreendendo toda esta fúria natural com uma simples ordem : - Quem é este? Perguntaram entre si. – Que até os ventos e o mar lhe obedecem? Quem é este, que encara o inferno, ao olhar além dos olhos de um miserável e subjugado ser humano, transformado em fera, acuado num campo de tumbas e lápides, prisioneiro indefeso de seres malignos, e o liberta das trevas, anulando a força das cadeias que o prendem, recebendo-o com amor e lhe dando a honra de enviá-lo como mensageiro e testemunha do seu poder? Quem é este? Indagavam .- Que se inclina publicamente e estende suas mãos á uma mulher, pecadora, surpreendida em flagrante adultério, digna de morte, e, que num repente, faz calar seus acusadores, confrontando-os com suas próprias faltas, e, amorosamente então, faze-a levantar-se, muito acima do nível do solo, na altura da dignidade que só um rei pode conferir a alguém, que esteja prostrado, e coloca diante dela a possibilidade de uma nova existência, sem fardos, sem ilusões, sem medos, sem culpas,... sem pecados.