terça-feira, 27 de julho de 2010

A N O I T E
Se eu pudesse, ah, se eu pudesse, eu te deteria.
Pois você vem com todos os meus temores.
Oh, caixa de surpresas: seus batedores não são nobres e me entristecem.
Ah se pudesse fugir do seu abraço, se o fechar de meus olhos me livrassem de você.
No entanto não posso negar ainda que em tormentos te contemple, o seu fascínio.

Seus filhos vagueiam perdidos sob suas asas, enquanto se movem, por risos eles
choram.
E quando os deixa com juras e sonhos, eles te buscam, esperam e sofrem.
Dama desejada, que por vestidos festivais se orna com o brilho de todos os olhos.
Seus braços se abrem pra anunciar com promessas vãs
a carícia que guardas no seio, mas como a névoa, seu afago é frio e de suas entranhas só
a ilusão é gerada.

Quando tirares da salva o incômodo e em seu lugar colocares delícias, derramarei em
seus braços, num jorrar contínuo, o fluxo agradecido da alma libertada.
Pois que, no tempo do acumular das ostras, sob o peso frio da solidão e do medo, finas
pérolas foram formadas para enfeitar o manto de que te cobres sempre.

Agora eu sei, és prisioneira triste que ostenta a glória que a ti não pertence.
O seu sorriso é pranto, o seu prazer é medo.
És somente carcereira dos que já foram condenados, e quando eles choram e suas
lágrimas rolam, sobre as suas vestem caem, e á essa glória mancham, te tornando
feia, envelhecida e morta.

Se eu pudesse, ah, se eu pudesse, sim, eu te deteria. Embora saiba que não vem de ti
minha agonia, pois, tu és apenas uma caixa de surpresas, cujo presente, se de
grego ou de amigo, se pra morte ou se pra vida,
antes de ser em ti gerado, e até que á mim fosse exposto, já te transformara em
cruel aliada, pra de todos espantar os sonhos e ferir as almas.

Ah, eterna bailarina, seus movimentos de beleza e graça e sua música de lamentos
e júbilos tocarão meu coração e me farão chorar, e eu desejarei te deter,
cada vez mais intensamente, até o dia em que no palco onde te exibes, se acenda
a mais forte luz de todos os holofotes, luz capaz de te despir e de arrancar de sobre seus
ombros o manto tecido com todas as ilusões de todos os seus admiradores.
Nesse dia, nua estarás e sentirás seu próprio frio e desconforto.
Só e envergonhada serás conduzida ao calor do sol que te receberá, e então,
Deixarás de ser o que se teme, o que se espera em vão, o que se esconde,
O que inspira paixões.
Deixarás de noite enfim, e talvez passe a ser lembrada sempre como o piscar
De um eterno dia.

Lino Aban / 2002

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