segunda-feira, 9 de abril de 2012

O RETORNO DA VIDA

TEXTO III
É algo verdadeiramente impressionante este universo desconhecido de forças que governam o interior dos seres humanos, que governam suas emoções, que direcionam e determinam suas atitudes e reações, produzindo um existir incompreensível e, aparentemente aleatório em cada um de seus atos.
Doze homens, recebendo dia após dia, informações que deveriam orientá-los, por serem geradas de uma fonte que, por todos eles, já, definitivamente, reconhecida como digna de toda confiança, e, que, no entanto, por repetidas vezes, estes mesmos homens não demonstraram confiar totalmente, como se fossem a isso involuntariamente induzidos, sem perceberem, enquanto isso faziam, a incoerência de suas ações.
Ele os escolhera, a eles se revelara o tempo todo em que com eles estivera, jamais o viram fazer ou dizer algo que não tivesse se revelado absolutamente correto, instrutivo, confiável. Eles pareciam não ter prestado atenção ás suas palavras, nunca, pois, as coisas aconteciam sempre segundo suas predições, no entanto, sempre se manifestando como coisas inusitadas, inesperadas. Não lhes falara afinal, que seria rechaçado por todas as formas de autoridade, e não viram eles isso se repetir, incompreensivelmente? Não lhes dissera ser necessário que tudo sofresse nas mãos dos lideres religiosos, dos gentios, até a morte? E não viram isso acontecer, com precisão, com espantosa e cruel precisão? O que afinal paralisava, neles, sua capacidade de tão somente pensar e se lembrar? Não lhes avisara de suas próprias fraquezas, sua falha miserável, ao recuar, amedrontados e deixá-lo só, no momento de seu confronto com os que o odiavam? De tudo os prevenira, os avisara. Que força exterior, ou seria fraqueza interior, essa, capaz de apagar tão rápida e facilmente palavras sempre tão fortes, tão sérias, que se relacionavam á todo contexto com o qual eles, ao se ligarem ao mestre nazareno, haviam recebido como parte integral de suas próprias vidas?
Ele predissera sobre si mesmo a rejeição, a traição, a angústia, o abandono, o suplício e a morte, mas,... vejam, lembrem-se, “... no terceiro dia, eu vou ressuscitar.” Ah, se eles estivessem atentos às suas palavras, não teriam se apartado do túmulo do seu amado Senhor, e que impacto não teria sido às centenas de vidas que certamente testemunhariam a loucura, a insanidade de onze homens que se recusavam a admitir a morte de seu Mestre, permanecendo como crianças que foram separadas de seus pais , junto á tumba que guardaria seus corpos, insistindo, teimosamente que eles iriam voltar, pois elas os amavam e eram amadas por eles, e eles, iriam voltar. E então, depois de serem alvos de todas as formas de escárnio, e aparente piedade, todos veriam o que só os anjos puderam presenciar. A grande pedra sendo afastada da entrada da tumba, não movida por mãos humanas, e o Mestre Nazareno, o Rabi da Galiléia saindo. Que espetáculo seria!!!
Mas, não foi assim, eles se esqueceram, aquele angustiante e inexplicável manto de tristeza e expectação sombria que os envolvera desde que o seu Mestre demonstrara uma decisão obstinada de seguir para Jerusalém, agora os empurrara para os braços de um mórbido desânimo, e eles seguiam assim, ainda confusos, ainda amedrontados, com suas mentes, certamente, cheias com todas as formas de expectação de mal, de assaltos repentinos, mas, nada, absolutamente nada, nenhum clarão de esperança, nenhuma luz por mais tênue que fosse para orientá-los para o que estava por vir. Como entender algo tão espantoso?
E então, sem que a porta se abrisse, de repente uma figura conhecida, um rosto familiar, uma presença tantas vezes portadora da incômoda mania de fugir do convencional, para se revelar em atitudes e gestos sempre tão bizarros, envoltos, invariavelmente, pelo silêncio, irritantemente perturbador que insinua o aprendizado vitorioso, irrompe entre eles, e eles, então, aquele grupo de homens, acuados, temerosos, são testemunhas afinal, do que os profetas proclamaram, sem, contudo, assimilar a grandeza de suas anunciações, do que seus próprios ouvidos ouviram, sem que chegasse de fato ao seu entendimento, e que agora, se manifestava entre eles, de forma clara, palpável, humanamente perceptível, que era o milagre da ressurreição. Jesus estava vivo novamente, não era um espírito, não era um fantasma, não se deixava perceber por sombras espectrais, mas se permitia ser tocado, olhava-os nos olhos, falava com eles, transmitia-lhes vida com suas palavras, comia com eles. Enchia seus corações, abrindo-lhes seu entendimento para compreenderem finalmente as profecias, e dava-lhes o bálsamo do perdão curador ao entregar-lhes a tarefa da continuação do maravilhoso plano do Pai, que consistia em salvar a humanidade, da condenação á que toda ela já estava sentenciada, um inferno de aflições eternas, separada de Deus. Mas que todos que ouvissem esta pregação, cressem, e se arrependessem de seus pecados, de sua rebeldia declarada, e clamassem por perdão, receberiam o perdão, o preço já havia sido pago, tudo já se consumara.
Foram testemunhas agora de seus derradeiros passos, sobre o chão batido, empoeirado, que se apegavam em seus pés e sandálias, enquanto caminhava junto á eles, assim como a areia ás margens do grande lago se apertando para imprimir em seu dorso as pegadas do guerreiro que vencera a morte, do poeta que as concebera, do ser eterno que lhes dera forma. E o viram erguer-se, não como fora erguido alguns dias antes, suspenso da terra, puxado por mãos ferozes, violentas, desprovidas de qualquer afabilidade, antes, cruéis, portadoras de humilhação e dor, que o arremessaram para o alto, preso por cravos á um madeiro em forma de cruz. Não, agora se erguia majestoso, acima do poder dos elementos, que não lhe ofereciam resistência, acima das leis da natureza, que já não lhe impunham limites. Ele simplesmente se elevou nos ares com a mesma realeza com que um dia o viram andar sobre as águas.
Agora eles tinham uma missão, deveriam ir para Jerusalém e esperar, esperar uma visitação que lhes capacitaria serem testemunhas de tudo que haviam visto e ouvido, mesmo porque, em suas deficiências e por sua humanidade, não seriam capazes de serem fiéis na proclamação de tal ordem, mas Aquele que os visitaria, o Consolador prometido, o Espírito da verdade, os conduziria, transformando-os, moldando-os e fazendo-os lembrar de tudo o que o Mestre lhes anunciara.

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