terça-feira, 17 de abril de 2012

C O R A Ç Ã O S E M D E U S

Há um mundo terrível, desconhecido de todos os conhecidos pesadelos.
Há um lugar hostil, nascente de todos os venenos, manancial onde florescem as ervas mais amargas e destruidoras.
Reino soberano e adorador de toda forma sequer imaginável de egoísmo e crueldade.
A justiça não o influencia e nem é capaz de colocar dentro dele caminhos novos.
A piedade, ele a olha com desprezo e o mais próximo que lhe permite chegar é em sua embaixada, na qual a recebe e até lhe dá por algum tempo hospedagem, mas, em vindo seus príncipes e nobres, já não há para ela lugar. Não em seus aposentos reais.
Coração humano, coração sem Deus, tortuosa vereda, por inconfiáveis sombras, governado.
Os opostos tomam assento dentro dele. Seus capitães são cegos, mas suas espadas ferozes, insaciáveis. Ódio injustificável, fúria descontrolada.
Onde está a fronteira? Pergunta a razão. Onde os limites? Indaga o espanto.
A morte acena como última esperança. Mas por favor, suplica. Sem dor, sem afronta. Só o silêncio, só o esquecimento.
Até as feras param de matar quando sua fome é saciada.
Mas o coração é general impiedoso e o entendimento, embaixador sem poder, mensageiro sem boas-novas.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O RETORNO DA VIDA

TEXTO III
É algo verdadeiramente impressionante este universo desconhecido de forças que governam o interior dos seres humanos, que governam suas emoções, que direcionam e determinam suas atitudes e reações, produzindo um existir incompreensível e, aparentemente aleatório em cada um de seus atos.
Doze homens, recebendo dia após dia, informações que deveriam orientá-los, por serem geradas de uma fonte que, por todos eles, já, definitivamente, reconhecida como digna de toda confiança, e, que, no entanto, por repetidas vezes, estes mesmos homens não demonstraram confiar totalmente, como se fossem a isso involuntariamente induzidos, sem perceberem, enquanto isso faziam, a incoerência de suas ações.
Ele os escolhera, a eles se revelara o tempo todo em que com eles estivera, jamais o viram fazer ou dizer algo que não tivesse se revelado absolutamente correto, instrutivo, confiável. Eles pareciam não ter prestado atenção ás suas palavras, nunca, pois, as coisas aconteciam sempre segundo suas predições, no entanto, sempre se manifestando como coisas inusitadas, inesperadas. Não lhes falara afinal, que seria rechaçado por todas as formas de autoridade, e não viram eles isso se repetir, incompreensivelmente? Não lhes dissera ser necessário que tudo sofresse nas mãos dos lideres religiosos, dos gentios, até a morte? E não viram isso acontecer, com precisão, com espantosa e cruel precisão? O que afinal paralisava, neles, sua capacidade de tão somente pensar e se lembrar? Não lhes avisara de suas próprias fraquezas, sua falha miserável, ao recuar, amedrontados e deixá-lo só, no momento de seu confronto com os que o odiavam? De tudo os prevenira, os avisara. Que força exterior, ou seria fraqueza interior, essa, capaz de apagar tão rápida e facilmente palavras sempre tão fortes, tão sérias, que se relacionavam á todo contexto com o qual eles, ao se ligarem ao mestre nazareno, haviam recebido como parte integral de suas próprias vidas?
Ele predissera sobre si mesmo a rejeição, a traição, a angústia, o abandono, o suplício e a morte, mas,... vejam, lembrem-se, “... no terceiro dia, eu vou ressuscitar.” Ah, se eles estivessem atentos às suas palavras, não teriam se apartado do túmulo do seu amado Senhor, e que impacto não teria sido às centenas de vidas que certamente testemunhariam a loucura, a insanidade de onze homens que se recusavam a admitir a morte de seu Mestre, permanecendo como crianças que foram separadas de seus pais , junto á tumba que guardaria seus corpos, insistindo, teimosamente que eles iriam voltar, pois elas os amavam e eram amadas por eles, e eles, iriam voltar. E então, depois de serem alvos de todas as formas de escárnio, e aparente piedade, todos veriam o que só os anjos puderam presenciar. A grande pedra sendo afastada da entrada da tumba, não movida por mãos humanas, e o Mestre Nazareno, o Rabi da Galiléia saindo. Que espetáculo seria!!!
Mas, não foi assim, eles se esqueceram, aquele angustiante e inexplicável manto de tristeza e expectação sombria que os envolvera desde que o seu Mestre demonstrara uma decisão obstinada de seguir para Jerusalém, agora os empurrara para os braços de um mórbido desânimo, e eles seguiam assim, ainda confusos, ainda amedrontados, com suas mentes, certamente, cheias com todas as formas de expectação de mal, de assaltos repentinos, mas, nada, absolutamente nada, nenhum clarão de esperança, nenhuma luz por mais tênue que fosse para orientá-los para o que estava por vir. Como entender algo tão espantoso?
E então, sem que a porta se abrisse, de repente uma figura conhecida, um rosto familiar, uma presença tantas vezes portadora da incômoda mania de fugir do convencional, para se revelar em atitudes e gestos sempre tão bizarros, envoltos, invariavelmente, pelo silêncio, irritantemente perturbador que insinua o aprendizado vitorioso, irrompe entre eles, e eles, então, aquele grupo de homens, acuados, temerosos, são testemunhas afinal, do que os profetas proclamaram, sem, contudo, assimilar a grandeza de suas anunciações, do que seus próprios ouvidos ouviram, sem que chegasse de fato ao seu entendimento, e que agora, se manifestava entre eles, de forma clara, palpável, humanamente perceptível, que era o milagre da ressurreição. Jesus estava vivo novamente, não era um espírito, não era um fantasma, não se deixava perceber por sombras espectrais, mas se permitia ser tocado, olhava-os nos olhos, falava com eles, transmitia-lhes vida com suas palavras, comia com eles. Enchia seus corações, abrindo-lhes seu entendimento para compreenderem finalmente as profecias, e dava-lhes o bálsamo do perdão curador ao entregar-lhes a tarefa da continuação do maravilhoso plano do Pai, que consistia em salvar a humanidade, da condenação á que toda ela já estava sentenciada, um inferno de aflições eternas, separada de Deus. Mas que todos que ouvissem esta pregação, cressem, e se arrependessem de seus pecados, de sua rebeldia declarada, e clamassem por perdão, receberiam o perdão, o preço já havia sido pago, tudo já se consumara.
Foram testemunhas agora de seus derradeiros passos, sobre o chão batido, empoeirado, que se apegavam em seus pés e sandálias, enquanto caminhava junto á eles, assim como a areia ás margens do grande lago se apertando para imprimir em seu dorso as pegadas do guerreiro que vencera a morte, do poeta que as concebera, do ser eterno que lhes dera forma. E o viram erguer-se, não como fora erguido alguns dias antes, suspenso da terra, puxado por mãos ferozes, violentas, desprovidas de qualquer afabilidade, antes, cruéis, portadoras de humilhação e dor, que o arremessaram para o alto, preso por cravos á um madeiro em forma de cruz. Não, agora se erguia majestoso, acima do poder dos elementos, que não lhe ofereciam resistência, acima das leis da natureza, que já não lhe impunham limites. Ele simplesmente se elevou nos ares com a mesma realeza com que um dia o viram andar sobre as águas.
Agora eles tinham uma missão, deveriam ir para Jerusalém e esperar, esperar uma visitação que lhes capacitaria serem testemunhas de tudo que haviam visto e ouvido, mesmo porque, em suas deficiências e por sua humanidade, não seriam capazes de serem fiéis na proclamação de tal ordem, mas Aquele que os visitaria, o Consolador prometido, o Espírito da verdade, os conduziria, transformando-os, moldando-os e fazendo-os lembrar de tudo o que o Mestre lhes anunciara.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ciclos e Caminho


Estamos em 2012, mais um ano, como
todos os anos, mais uma vez tento me livrar da idéia que, sinto como se sobre
mim fosse repetidamente lançada, de que, aqui, se inicia algo novo, um novo
ciclo, uma nova chance, um novo desafio. Não, não quero e nem devo me sentir
assim, embora saiba que ciclos são reais, que chances são necessárias e que
desafios sempre brotarão à minha volta, por serem inerentes a natureza da vida.
Um ciclo, porém, aponta para algo
completo, algo que foi delineado por um começo, por um durante e também um fim,
e certamente, não poderia colocar a suposta roupagem, deste referido ciclo,
sobre o corpo, por mais simples que fosse de qualquer dos sonhos ou projetos
que estivesse vivenciando, pois no decorrer deste ciclo, as chances se
misturaram às perdas e conquistas e os desafios se multiplicaram, distanciando
esses mesmos sonhos e projetos, da calmaria desejável de um fim almejado.
Foi sim, o fim de um ano, 2011. O
calendário, porém, já foi retomado, e nós prosseguimos. E clamamos todos os
dias, ansiando pelo maná, que nos alimenta, que nos fortalece, que nos capacita
para continuarmos fazendo o que cremos ser o que Deus nos colocou em mãos para
fazer. Foi um tempo de trabalho e aprendizado. Os frutos deste trabalho e
aprendizado, se já existem, devem ser analisados, naturalmente, à luz do
presente, para as devidas e possíveis correções que se façam necessárias. E
sempre há correções, pois somos limitados, humanamente incapazes de reter na
integralidade o conhecimento compreendido.
É confortante saber que não estou só,
que posso olhar á minha volta e ser fortalecido por um sorriso encorajador, por
uma palavra de consolo, de exortação, por um abraço acolhedor ou até mesmo um
olhar, simplesmente, que transmita o poder da unidade que há no corpo de
Cristo, Sua igreja. Enquanto compreendermos e valorizarmos este princípio
maravilhoso de amor e unidade, não nos desfaleceremos, pela violência das adversidades,
ainda que o inimigo seja incansável. Não nos deixaremos enganar, dando ouvidos
á mentiras que acalentam nosso ego e entorpecem nosso espírito, nos levando a
palmilhar veredas e atalhos que só nos distanciam da trajetória original, cujo
mapa foi escrito com sangue, não o nosso, cuja comissão foi proferida pelo
Senhor Jesus, não por um dos apóstolos.
Mas, graças á Deus, porém, há um
caminho, mesmo agora, por Ele tracejado, que nos aponta e direciona cada uma de
nossas ações para o alvo cativador dos nossos anseios, esforços e motivação,
que é obediência e missões. Há milhões, que esperam ouvir o que anjos não podem
anunciar, que esperam ver, o que criaturas comuns não seriam capazes de
vivenciar. E lá na linha de frente, onde a batalha se faz mais intensa, ou na
retaguarda, onde estratégias e planejamentos são indispensáveis, há muito que
fazer, neste contexto, onde suor e alegria andam de mãos dadas, onde lágrimas e
gratidão, não se apartam, e onde a interpretação mais forte do evangelho capaz de
tocar e transformar vidas se revela no existir de pessoas que não fazem
reivindicações, pois, já entregaram tudo, não esperam reconhecimento, pois já
vislumbraram seu prêmio, não aspiram á reinos terrenos, pois, são, e sabem que
são cidadãos do céu, não se perdem no caminho, pois conhecem a voz do Pastor.
Amar é preciso, amar á Deus acima de
todas as coisas, amar o próximo como a nós mesmos. Amarmo-nos uns aos outros,
como Ele nos amou.
Para que, nisso, reconheçam todos
que dEle ouvirem, que somos de fato seus
discípulos e que pregamos em Seu nome. O ciclo está aberto, há um coração
batendo constante e insistentemente por missões, há uma voz clamando
apaixonadamente por corações que se entreguem á esta causa. O ciclo está
aberto, ele só se encerrará quando não houver mais em lugar algum debaixo do
céu, um coração que não tenha sido colocado diante da escolha eterna. João 13:
20.

Nós, mestiços...

Ao estudar os
fatos, analisar o histórico de cada elemento que se inseriu como componente
para a formação e atual composição social, política e religiosa desta imensa
terra chamada América Latina, não podemos deixar de pensar, que, assim como
alguém já especulou, que, crer na teoria do “Big Ben”, ou seja, que uma suposta
explosão, culminaria, depois de muitos acasos, em uma tão complexa e perfeita
máquina biológica, onde tudo que se move, se encaixa em perfeito e assombroso
equilíbrio, isso seria então, fazer o caminho inverso, em uma igual teoria, se
especulássemos que poderia ser uma realidade sadia, viçosa, equilibrada, o
presente de um aglomerado de nações, em cuja origem se encontrasse tanto
desajuste, tanta distorção, tanto veneno em todas as áreas, em todos os níveis.
Socialmente,
encontramos nações, que conquanto proclamem seu anseio por liberdade e até se
unam em torno de um objetivo comum em determinadas reivindicações, dentro de
suas fronteiras, seus mais bem dotados, exercem a força, para mais uma vez,
oprimirem, e a seu próprio sangue. E isto é veneno presente em todas as
gerações. Os fortes, se encaixam como
herdeiros de seus conquistadores e predadores, os fracos, não conseguem se ver
como tendo direito aos manjares de suas conquistas.
Essa opressão
é estabelecida através da política, onde, como num grande tabuleiro, forças
maiores, e sempre há uma força maior, fazem mover as peças, para que esses
mecanismos, tentáculos políticos, não importa que nome recebam, cumpram um
objetivo maior, que é, e sempre será, manter sobre estes povos, e aqui
analisados, latinos, um manto de ignorância quanto ao valor do ser, o que de
fato conseguem, pois nós, como povo, com tantas marcas hereditárias de
violência, abuso, injustiça, tudo isso praticado por gerações, de igualmente,
desajustados emocionais e sociais, então, que outro retrato se poderia revelar,
se não este, o de um povo com sentimentos de inferioridade, com uma amargura
entranhada na alma, contra toda presença estrangeira, acompanhada de uma
subserviência quase inevitável.
Então,
assistimos aqui e ali, alguns atos, que aparentam à primeira vista, um
vislumbre de entendimento e apego á princípios de liberdade, de igualdade, de
justiça social. No entanto, consolidado o poder nas mãos dos que erguem tais
bandeiras, tudo, novamente, se desemboca em opressão, refletida nas ditaduras,
em exploração que acompanha os movimentos populistas e, em fome e miséria, que
é a ferida exposta em cada parte do corpo desta imensa América.
Em verdade, o
antídoto que em qualquer parte do globo, poderia ser a cura para tais
enfermidades, sociais e políticas, ironicamente veio como agente de incursão,
entre outros, que trouxeram a America Latina toda a mudança pelo que passou e
na qual se tornou, mas, lamentavelmente, o remédio já veio adulterado. Sim, a
religião, que trazida para apresentar
aos nativos um reino de amor, fez dobrar diante dos invasores, os
joelhos, antes livres, de milhares de nações, apresentando-lhes um deus tirano,
parcial, sanguinário, cujas palavras não faziam sentido, leis que não
compreendiam. E a esses deuses eram obrigados a prestar adoração. E por isso
passaram a invocar seus próprios deuses com os nomes dos novos deuses.
E assim foi se
formando esta terra, os que antes eram puros, se mesclaram, sem perceber, na
passagem do tempo, que sua identidade étnica, cultural, ia se distanciando de
sua origem. Lembrando com tristeza, dos que também, simplesmente deixaram de
existir pelo atropelo das transformações e das novas regras
De tudo isso,
o que ficou pra nós hoje, latino- americanos, é que somos todos nós, com raras
exceções, um povo mestiço, de variadas crenças, costumes e tradições, que se
misturam, se colidem, sem, no entanto, produzir fagulhas que ocasionem um
grande conflito.
Afinal,,somos reconhecidamente, um povo pacífico, e talvez,
porque não, ... seja essa a nossa mais forte e atual expressão de identidade.