segunda-feira, 22 de julho de 2013



                                    Drogas, Um Caminho de Dor

          Ele foi erguido do chão como um galho seco.
E como outros galhos ele foi arrastado.
Os que o ergueram não perceberam, não perceberam que, o que fazia seu corpo tremer não eram calafrios causados pela ânsia e pela necessidade física de uma última dose, de uma picada talvez.
Ninguém sequer notara que o que fazia seu corpo agitar-se como se uma febre o consumisse, era uma simples, mas violenta comoção. Que vinha do mais profundo do seu ser, que o fazia derramar-se como um menino, em prantos e soluços , ao olhar para os corpos, que como o dele, eram carregados.
Seus amigos, queridos, companheiros, amados.
Chorando na alma, ele falava consigo;
- Éramos pequenas flores, nascidas em jardins, aprazíveis ou não.
Éramos pequenos nobres, a viver cheios de alegria e vida, no pulsar maravilhoso, de um anseio natural e vivo dentro de nós. E como crianças que éramos, celebrávamos cada momento a vida e a beleza de todas as cores, de todos os sons, das infindáveis descobertas, dos espantos que nos paralisavam, dos folguedos que nos enchiam de prazer.                
Recebíamos e dávamos amor na proporção em que nos era ensinado o valor de tal sentimento e sobre a vereda onde ele poderia florescer.
          No entanto, em algum canto esquecido e escuro deste imenso castelo de sonhos, no qual crescíamos, fomos surpreendidos e nos deixamos levar. Seduzidos por uma suave brisa, que nos acariciou, enquanto mentia sobre a realidade de nossas limitações, enquanto nos alimentava com doces doses de veneno, e que, finalmente, ao percebermos que nos faltava algo no qual nos equilibrar, lançou sobre nós toda a fúria de sua real personalidade.                                                           
Não era uma brisa, era um vendaval.
          E fomos arrastados por correntes que nossas próprias mãos seguravam.              E ficamos como que achatados. Vermes desprezíveis, indesejáveis, fugindo dos olhares que nos miravam compassivos, mas que refletiam dentro de nós o que realmente eram.                                                                                       
Açoites á castigar nossa derrota.
          Entorpecidos e desabados em nosso resquício último de vontade e vigor, nos permitíamos tão somente subir nas escarpas doloridas de nossas lembranças, fechar os olhar, e só então olhar.                              
Olhar o tempo que nos empurrou e nos empurra, ver quebrados em suas ondas algo que já foi um dia em nós, renovo.                                                  
Olhar entristecido os fragmentos, dos sonhos, dos desejos esquecidos, que vagando agora, nas ondas silenciosas dos dias já passados, nos fazem chorar e cerrar os olhos envergonhados, pois, nos acenam os fragmentos e em suas mortalhas parecem chorar conosco, enquanto pensamos vir deles a voz de lamento. É, no entanto, dentro de nós, que num campo esquecido, onde guardados como desterrados perpétuos, nosso próprio sangue e nossa própria vida, esperam, mortalmente silenciosos, como epitáfios numa tumba desconhecida.                                                             
Esperam um sono que não chegará.
          E vagamos então entre as lápides que apontam nossas mortes, ornamentando com as flores da autocomiseração as vítimas do nosso próprio medo.
         E olhamos à nossa volta, buscando sem esperança de encontrar, uma força amiga que nos faça erguer para um novo dia, uma nova chance para começar de novo. Sem as amarras do passado, que nos tornam fracos, sem a expectação mórbida do futuro, que nos faz vulneráveis.                              
E em nossas mentes, constantemente atormentadas pelas sentenças proferidas em cada olhar que nos observa , procuramos achar algo ou alguém sobre o qual lançar a cada dia o enorme peso que nos esmaga, sem, contudo, ao aponta um alvo, sentirmos descanso ou alívio na alma.
          Ao percebermos que as vozes, as imprecações, os risos, o desprezo, os vereditos mascarados, mas, impiedosamente condenatórios e todas as formas mímicas e verbais de tortura se encontram e fazem morada na arena camuflada de nossa sanidade.                                                            
Então voltamos vencidos, aos cantos escuros dos nossos castelos de sonhos e nos deixamos mais uma vez seduzir.                                             
Esperando inconscientemente sonhadores, que seja a última carícia, que seja o último prazer.
Pois há uma porta fechada.
Nós não sabemos como abrir.
                      



          

Brasil, Pátria Querida


                       
                               B R A S I L  ,  P Á T R I A  Q U E R I D A

     Terra amada, por seus filhos amada.
Quando então corriam livres e formavam nas estrofes do tempo, com sua
liberdade e vigor as rimas de alegria e exuberância da eterna poesia da
vida.
Terra amada, e por estranhos violada.
Só viram nela o valor que se arranca.
A beleza que se comercializa.
A riqueza que se desperdiça.
Não a amaram como terra querida. Mas ela os recebeu com honras.
Diante deles, em salvas sublimes, se entregou sem reservas.
Revelou seus segredos e deu-lhes quinhão na herança de seus filhos.
Mas eles, cruéis, arrogantes, obrigaram-na a conhecer a dor, quando ela
lhes oferecia a alegria e a fartura.
Obrigaram-na a se despir de seus ornamentos, quando ela lhes dedicava a
beleza de sua formosura.
Sim, cruéis e arrogantes, de perversos e corrompidos corações, estéreis de
sentimentos nobres.
Não lhes comoveu o sorriso que os recebera.
Nem foi capaz de tocar suas emoções a simplicidade e a franqueza do
amor que os abraçara.
Tiranos, sua realização e glória se alimentaram da vergonha e da dor dos
que por eles foram subjugados.
Almas doentes, que se obstinam em buscar seu poder na imposição de
humilhações e afrontas contra os simples que habitam em paz.
Insensatos, um dia saberão que a força do verdadeiro poder se alimenta
da justiça e quando então se perceberem feitos reféns deste poder, a
justiça lhes acenará com o mesmo rigor com que se fizeram deuses.
Serão forçados a olhar por sobre os próprios ombros e saberão que
habitaram como intrusos numa terra querida, que por seus filhos era
amada, mas que por eles foi desonrada.
E lhes sugaram como vampiros a seiva de seu vigor. E a despiram, e a
marcaram, enquanto a chamavam de mãe gentil.
Ela, porém, os amou sempre.
E esperou que despertassem de sua ambição cega, que percebessem sua
generosidade imparcial, sua inesgotável tolerância e se voltassem de suas
ações insanas, para enfim amá-la e honra-la como mãe gentil.
Para cuidar de seus filhos  e lavar suas feridas, feridas que eles mesmos
lhes fizeram.
Eles olharão por sobre os próprios ombros e compreenderão o porque de
terem possuído uma existência tão vazia, tão desprovida de razão, tão
mesquinha e infeliz.
Afinal desprezaram toda forma de vida.
Se fizeram surdos a todo o clamor do coração...
E enquanto feriam a terra, arrancando dela e de seus filhos a vida,
não percebiam em sua avidez insensível, que eles passariam.
Ela, porém, seria sempre Brasil,

uma terra amada, e por seus filhos querida.

terça-feira, 17 de abril de 2012

C O R A Ç Ã O S E M D E U S

Há um mundo terrível, desconhecido de todos os conhecidos pesadelos.
Há um lugar hostil, nascente de todos os venenos, manancial onde florescem as ervas mais amargas e destruidoras.
Reino soberano e adorador de toda forma sequer imaginável de egoísmo e crueldade.
A justiça não o influencia e nem é capaz de colocar dentro dele caminhos novos.
A piedade, ele a olha com desprezo e o mais próximo que lhe permite chegar é em sua embaixada, na qual a recebe e até lhe dá por algum tempo hospedagem, mas, em vindo seus príncipes e nobres, já não há para ela lugar. Não em seus aposentos reais.
Coração humano, coração sem Deus, tortuosa vereda, por inconfiáveis sombras, governado.
Os opostos tomam assento dentro dele. Seus capitães são cegos, mas suas espadas ferozes, insaciáveis. Ódio injustificável, fúria descontrolada.
Onde está a fronteira? Pergunta a razão. Onde os limites? Indaga o espanto.
A morte acena como última esperança. Mas por favor, suplica. Sem dor, sem afronta. Só o silêncio, só o esquecimento.
Até as feras param de matar quando sua fome é saciada.
Mas o coração é general impiedoso e o entendimento, embaixador sem poder, mensageiro sem boas-novas.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O RETORNO DA VIDA

TEXTO III
É algo verdadeiramente impressionante este universo desconhecido de forças que governam o interior dos seres humanos, que governam suas emoções, que direcionam e determinam suas atitudes e reações, produzindo um existir incompreensível e, aparentemente aleatório em cada um de seus atos.
Doze homens, recebendo dia após dia, informações que deveriam orientá-los, por serem geradas de uma fonte que, por todos eles, já, definitivamente, reconhecida como digna de toda confiança, e, que, no entanto, por repetidas vezes, estes mesmos homens não demonstraram confiar totalmente, como se fossem a isso involuntariamente induzidos, sem perceberem, enquanto isso faziam, a incoerência de suas ações.
Ele os escolhera, a eles se revelara o tempo todo em que com eles estivera, jamais o viram fazer ou dizer algo que não tivesse se revelado absolutamente correto, instrutivo, confiável. Eles pareciam não ter prestado atenção ás suas palavras, nunca, pois, as coisas aconteciam sempre segundo suas predições, no entanto, sempre se manifestando como coisas inusitadas, inesperadas. Não lhes falara afinal, que seria rechaçado por todas as formas de autoridade, e não viram eles isso se repetir, incompreensivelmente? Não lhes dissera ser necessário que tudo sofresse nas mãos dos lideres religiosos, dos gentios, até a morte? E não viram isso acontecer, com precisão, com espantosa e cruel precisão? O que afinal paralisava, neles, sua capacidade de tão somente pensar e se lembrar? Não lhes avisara de suas próprias fraquezas, sua falha miserável, ao recuar, amedrontados e deixá-lo só, no momento de seu confronto com os que o odiavam? De tudo os prevenira, os avisara. Que força exterior, ou seria fraqueza interior, essa, capaz de apagar tão rápida e facilmente palavras sempre tão fortes, tão sérias, que se relacionavam á todo contexto com o qual eles, ao se ligarem ao mestre nazareno, haviam recebido como parte integral de suas próprias vidas?
Ele predissera sobre si mesmo a rejeição, a traição, a angústia, o abandono, o suplício e a morte, mas,... vejam, lembrem-se, “... no terceiro dia, eu vou ressuscitar.” Ah, se eles estivessem atentos às suas palavras, não teriam se apartado do túmulo do seu amado Senhor, e que impacto não teria sido às centenas de vidas que certamente testemunhariam a loucura, a insanidade de onze homens que se recusavam a admitir a morte de seu Mestre, permanecendo como crianças que foram separadas de seus pais , junto á tumba que guardaria seus corpos, insistindo, teimosamente que eles iriam voltar, pois elas os amavam e eram amadas por eles, e eles, iriam voltar. E então, depois de serem alvos de todas as formas de escárnio, e aparente piedade, todos veriam o que só os anjos puderam presenciar. A grande pedra sendo afastada da entrada da tumba, não movida por mãos humanas, e o Mestre Nazareno, o Rabi da Galiléia saindo. Que espetáculo seria!!!
Mas, não foi assim, eles se esqueceram, aquele angustiante e inexplicável manto de tristeza e expectação sombria que os envolvera desde que o seu Mestre demonstrara uma decisão obstinada de seguir para Jerusalém, agora os empurrara para os braços de um mórbido desânimo, e eles seguiam assim, ainda confusos, ainda amedrontados, com suas mentes, certamente, cheias com todas as formas de expectação de mal, de assaltos repentinos, mas, nada, absolutamente nada, nenhum clarão de esperança, nenhuma luz por mais tênue que fosse para orientá-los para o que estava por vir. Como entender algo tão espantoso?
E então, sem que a porta se abrisse, de repente uma figura conhecida, um rosto familiar, uma presença tantas vezes portadora da incômoda mania de fugir do convencional, para se revelar em atitudes e gestos sempre tão bizarros, envoltos, invariavelmente, pelo silêncio, irritantemente perturbador que insinua o aprendizado vitorioso, irrompe entre eles, e eles, então, aquele grupo de homens, acuados, temerosos, são testemunhas afinal, do que os profetas proclamaram, sem, contudo, assimilar a grandeza de suas anunciações, do que seus próprios ouvidos ouviram, sem que chegasse de fato ao seu entendimento, e que agora, se manifestava entre eles, de forma clara, palpável, humanamente perceptível, que era o milagre da ressurreição. Jesus estava vivo novamente, não era um espírito, não era um fantasma, não se deixava perceber por sombras espectrais, mas se permitia ser tocado, olhava-os nos olhos, falava com eles, transmitia-lhes vida com suas palavras, comia com eles. Enchia seus corações, abrindo-lhes seu entendimento para compreenderem finalmente as profecias, e dava-lhes o bálsamo do perdão curador ao entregar-lhes a tarefa da continuação do maravilhoso plano do Pai, que consistia em salvar a humanidade, da condenação á que toda ela já estava sentenciada, um inferno de aflições eternas, separada de Deus. Mas que todos que ouvissem esta pregação, cressem, e se arrependessem de seus pecados, de sua rebeldia declarada, e clamassem por perdão, receberiam o perdão, o preço já havia sido pago, tudo já se consumara.
Foram testemunhas agora de seus derradeiros passos, sobre o chão batido, empoeirado, que se apegavam em seus pés e sandálias, enquanto caminhava junto á eles, assim como a areia ás margens do grande lago se apertando para imprimir em seu dorso as pegadas do guerreiro que vencera a morte, do poeta que as concebera, do ser eterno que lhes dera forma. E o viram erguer-se, não como fora erguido alguns dias antes, suspenso da terra, puxado por mãos ferozes, violentas, desprovidas de qualquer afabilidade, antes, cruéis, portadoras de humilhação e dor, que o arremessaram para o alto, preso por cravos á um madeiro em forma de cruz. Não, agora se erguia majestoso, acima do poder dos elementos, que não lhe ofereciam resistência, acima das leis da natureza, que já não lhe impunham limites. Ele simplesmente se elevou nos ares com a mesma realeza com que um dia o viram andar sobre as águas.
Agora eles tinham uma missão, deveriam ir para Jerusalém e esperar, esperar uma visitação que lhes capacitaria serem testemunhas de tudo que haviam visto e ouvido, mesmo porque, em suas deficiências e por sua humanidade, não seriam capazes de serem fiéis na proclamação de tal ordem, mas Aquele que os visitaria, o Consolador prometido, o Espírito da verdade, os conduziria, transformando-os, moldando-os e fazendo-os lembrar de tudo o que o Mestre lhes anunciara.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ciclos e Caminho


Estamos em 2012, mais um ano, como
todos os anos, mais uma vez tento me livrar da idéia que, sinto como se sobre
mim fosse repetidamente lançada, de que, aqui, se inicia algo novo, um novo
ciclo, uma nova chance, um novo desafio. Não, não quero e nem devo me sentir
assim, embora saiba que ciclos são reais, que chances são necessárias e que
desafios sempre brotarão à minha volta, por serem inerentes a natureza da vida.
Um ciclo, porém, aponta para algo
completo, algo que foi delineado por um começo, por um durante e também um fim,
e certamente, não poderia colocar a suposta roupagem, deste referido ciclo,
sobre o corpo, por mais simples que fosse de qualquer dos sonhos ou projetos
que estivesse vivenciando, pois no decorrer deste ciclo, as chances se
misturaram às perdas e conquistas e os desafios se multiplicaram, distanciando
esses mesmos sonhos e projetos, da calmaria desejável de um fim almejado.
Foi sim, o fim de um ano, 2011. O
calendário, porém, já foi retomado, e nós prosseguimos. E clamamos todos os
dias, ansiando pelo maná, que nos alimenta, que nos fortalece, que nos capacita
para continuarmos fazendo o que cremos ser o que Deus nos colocou em mãos para
fazer. Foi um tempo de trabalho e aprendizado. Os frutos deste trabalho e
aprendizado, se já existem, devem ser analisados, naturalmente, à luz do
presente, para as devidas e possíveis correções que se façam necessárias. E
sempre há correções, pois somos limitados, humanamente incapazes de reter na
integralidade o conhecimento compreendido.
É confortante saber que não estou só,
que posso olhar á minha volta e ser fortalecido por um sorriso encorajador, por
uma palavra de consolo, de exortação, por um abraço acolhedor ou até mesmo um
olhar, simplesmente, que transmita o poder da unidade que há no corpo de
Cristo, Sua igreja. Enquanto compreendermos e valorizarmos este princípio
maravilhoso de amor e unidade, não nos desfaleceremos, pela violência das adversidades,
ainda que o inimigo seja incansável. Não nos deixaremos enganar, dando ouvidos
á mentiras que acalentam nosso ego e entorpecem nosso espírito, nos levando a
palmilhar veredas e atalhos que só nos distanciam da trajetória original, cujo
mapa foi escrito com sangue, não o nosso, cuja comissão foi proferida pelo
Senhor Jesus, não por um dos apóstolos.
Mas, graças á Deus, porém, há um
caminho, mesmo agora, por Ele tracejado, que nos aponta e direciona cada uma de
nossas ações para o alvo cativador dos nossos anseios, esforços e motivação,
que é obediência e missões. Há milhões, que esperam ouvir o que anjos não podem
anunciar, que esperam ver, o que criaturas comuns não seriam capazes de
vivenciar. E lá na linha de frente, onde a batalha se faz mais intensa, ou na
retaguarda, onde estratégias e planejamentos são indispensáveis, há muito que
fazer, neste contexto, onde suor e alegria andam de mãos dadas, onde lágrimas e
gratidão, não se apartam, e onde a interpretação mais forte do evangelho capaz de
tocar e transformar vidas se revela no existir de pessoas que não fazem
reivindicações, pois, já entregaram tudo, não esperam reconhecimento, pois já
vislumbraram seu prêmio, não aspiram á reinos terrenos, pois, são, e sabem que
são cidadãos do céu, não se perdem no caminho, pois conhecem a voz do Pastor.
Amar é preciso, amar á Deus acima de
todas as coisas, amar o próximo como a nós mesmos. Amarmo-nos uns aos outros,
como Ele nos amou.
Para que, nisso, reconheçam todos
que dEle ouvirem, que somos de fato seus
discípulos e que pregamos em Seu nome. O ciclo está aberto, há um coração
batendo constante e insistentemente por missões, há uma voz clamando
apaixonadamente por corações que se entreguem á esta causa. O ciclo está
aberto, ele só se encerrará quando não houver mais em lugar algum debaixo do
céu, um coração que não tenha sido colocado diante da escolha eterna. João 13:
20.

Nós, mestiços...

Ao estudar os
fatos, analisar o histórico de cada elemento que se inseriu como componente
para a formação e atual composição social, política e religiosa desta imensa
terra chamada América Latina, não podemos deixar de pensar, que, assim como
alguém já especulou, que, crer na teoria do “Big Ben”, ou seja, que uma suposta
explosão, culminaria, depois de muitos acasos, em uma tão complexa e perfeita
máquina biológica, onde tudo que se move, se encaixa em perfeito e assombroso
equilíbrio, isso seria então, fazer o caminho inverso, em uma igual teoria, se
especulássemos que poderia ser uma realidade sadia, viçosa, equilibrada, o
presente de um aglomerado de nações, em cuja origem se encontrasse tanto
desajuste, tanta distorção, tanto veneno em todas as áreas, em todos os níveis.
Socialmente,
encontramos nações, que conquanto proclamem seu anseio por liberdade e até se
unam em torno de um objetivo comum em determinadas reivindicações, dentro de
suas fronteiras, seus mais bem dotados, exercem a força, para mais uma vez,
oprimirem, e a seu próprio sangue. E isto é veneno presente em todas as
gerações. Os fortes, se encaixam como
herdeiros de seus conquistadores e predadores, os fracos, não conseguem se ver
como tendo direito aos manjares de suas conquistas.
Essa opressão
é estabelecida através da política, onde, como num grande tabuleiro, forças
maiores, e sempre há uma força maior, fazem mover as peças, para que esses
mecanismos, tentáculos políticos, não importa que nome recebam, cumpram um
objetivo maior, que é, e sempre será, manter sobre estes povos, e aqui
analisados, latinos, um manto de ignorância quanto ao valor do ser, o que de
fato conseguem, pois nós, como povo, com tantas marcas hereditárias de
violência, abuso, injustiça, tudo isso praticado por gerações, de igualmente,
desajustados emocionais e sociais, então, que outro retrato se poderia revelar,
se não este, o de um povo com sentimentos de inferioridade, com uma amargura
entranhada na alma, contra toda presença estrangeira, acompanhada de uma
subserviência quase inevitável.
Então,
assistimos aqui e ali, alguns atos, que aparentam à primeira vista, um
vislumbre de entendimento e apego á princípios de liberdade, de igualdade, de
justiça social. No entanto, consolidado o poder nas mãos dos que erguem tais
bandeiras, tudo, novamente, se desemboca em opressão, refletida nas ditaduras,
em exploração que acompanha os movimentos populistas e, em fome e miséria, que
é a ferida exposta em cada parte do corpo desta imensa América.
Em verdade, o
antídoto que em qualquer parte do globo, poderia ser a cura para tais
enfermidades, sociais e políticas, ironicamente veio como agente de incursão,
entre outros, que trouxeram a America Latina toda a mudança pelo que passou e
na qual se tornou, mas, lamentavelmente, o remédio já veio adulterado. Sim, a
religião, que trazida para apresentar
aos nativos um reino de amor, fez dobrar diante dos invasores, os
joelhos, antes livres, de milhares de nações, apresentando-lhes um deus tirano,
parcial, sanguinário, cujas palavras não faziam sentido, leis que não
compreendiam. E a esses deuses eram obrigados a prestar adoração. E por isso
passaram a invocar seus próprios deuses com os nomes dos novos deuses.
E assim foi se
formando esta terra, os que antes eram puros, se mesclaram, sem perceber, na
passagem do tempo, que sua identidade étnica, cultural, ia se distanciando de
sua origem. Lembrando com tristeza, dos que também, simplesmente deixaram de
existir pelo atropelo das transformações e das novas regras
De tudo isso,
o que ficou pra nós hoje, latino- americanos, é que somos todos nós, com raras
exceções, um povo mestiço, de variadas crenças, costumes e tradições, que se
misturam, se colidem, sem, no entanto, produzir fagulhas que ocasionem um
grande conflito.
Afinal,,somos reconhecidamente, um povo pacífico, e talvez,
porque não, ... seja essa a nossa mais forte e atual expressão de identidade.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

CREPÚSCULO DE UM SONHO


TEXTO II
Seus passos sempre foram dados numa direção clara, segura, sem desvios, sem titubeios. Seu olhar jamais demonstrou medo ou dúvida, suas palavras revelaram sempre, entre um clamor ou um sussurro, sua intenção firme, irrevogável. “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, que apedreja os que te foram enviados...” Discurso terrível pra se ouvir, como poderiam absorver tal sentença, eram seus discípulos, se alimentavam por suas palavras, se acostumaram com sua presença, se orientavam por seus movimentos. Dariam a vida por ele, sabiam agora, não havia uma outra razão pra viver. Seguí-lo, estar com ele, não havia vida além dessa existência, desse caminhar por aldeias solitárias, por estradas poeirentas, por acampamentos ao redor de cidades hostis..., não havia vida em qualquer lugar onde ele não estivesse. “Importa que eu seja traído, que seja entregue nas mãos dos sacerdotes e escribas, que me condenarão e me levarão aos gentios, que escarnecerão de mim, me açoitarão e me crucificarão ... “ Palavras terríveis de se ouvir. Não pode ser! Do que ele está falando? Há algo errado, não faz sentido. Suas mentes se recusavam trabalhar com tais especulações, tudo que assimilaram e sobre o qual estavam prontos á colocar as suas vidas se relacionava diretamente á sua presença com eles. Como poderiam conceber a continuação do que quer que fosse, sem ele. Será que o cansaço, que a oposição dos sacerdotes, dos lideres religiosos, haviam finalmente aberto uma brecha, uma ferida em suas emoções e ele começasse a se abater em seu espírito, falando de morte, de sofrimento, de suplício? Como poderiam ferir aquele que sarava feridas, ou impingir sofrimento á aquele que os demônios se submetiam? Como poderiam matar aquele que trazia de volta à vida, aos que já tinham sido tomados pela morte? Há algo errado, não faz sentido.
“Este é o meu filho amado, à Ele ouvi” Eles ouviram a voz, testemunharam sua glória, ouviram sobre o reino onde há um livro, dentro do qual seus nomes estavam escritos, viram o céu se abrir e o sobrenatural jamais visto antes adentrar o seu mundo, como o sopro natural da brisa de cada dia, transformando um pequeno cesto com cinco pães e dois peixinhos em um manan- cial de cujas entranhas brotavam, abundantemente ( como a vida que ele dissera trazer ) pães e peixes, centenas, milhares, o bastante para saciar uma multidão. Eles viram sua glória. E ela se mostrou outra vez, e outra vez, de novo... E então viram as multidões jogando suas vestes aos seus pés e as crianças correndo com ramos de palmeiras, que lançavam, adornando o caminho por onde passava, enquanto de todas as bocas ouviam o vibrar festivo, crescente, da aclamação calorosa que se fazia ouvir na cidade do grande Rei, não havia mais dúvida, as barreiras caíam finalmente, os religiosos teriam que reconhecer, como o próprio povo já o fazia agora, Ele era o prometido, o messias esperado, legítimo herdeiro e descendente real, linhagem de Davi.
Mas agora, outra vez, pareciam estar sob efeito de uma sonolência incompreensível, uma incapacidade de ver ou entender com clareza, ali estava Ele, novamente fazendo coisas sem sentido, como um servo comum, se cingia com uma toalha e lavava os pés de seus discípulos, e novamente falando de sofrimento, de solidão e morte, de abandono. Seus corações estavam estremecidos, não conseguiam acompanhar o significado profundo de suas palavras, só sabiam que elas lhes causavam uma tristeza de alma que os abatia. E Ele os chamou para uma vigília, foram ao monte, à um jardim onde um manto de opressão os mantinha cansados demais para permanecerem acordados , Ouviram sua voz, mas parecia distante, perceberam seus movimentos, o ruído de seus passos, mas, a expectação de algo ruim crescia á cada instante, e então, de repente, mergulharam no mais apavorante pesadelo do qual sequer, puderam algum dia imaginar. Uma turba se aproximou ostensivamente, armados de espadas e porretes, eles perceberam, de alguma maneira, que o mal já houvera sido determinado contra eles e seu Mestre, e num lampejo de coragem se aproximaram prontos para lutar, tendo mesmo, um deles se adiantado nessa disposição o bastante para ferir um dos oponentes. E até naquela situação, puderam testemunhar o poder maravilhoso daquele homem, no último milagre efetuado com o toque de suas mãos, ao estendê-las em direção á orelha ferida do seu agressor, para livrá-lo da dor e do sofrimento causado pela impetuosidade de seu discípulo mais afoito. – Não resistais ao perverso, Ele dissera. – E ao que te ferir na face direita, dá-lhe também a esquerda. Seus ensinos não eram só de palavras, Ele os vivia. E então, se cumpriam os acontecimentos, cada um deles, por ele mesmo anunciados, seus amigos, o deixaram, aterrorizados demais para permanecerem com ele. E como predissera, foi traído, foi vendido, foi entregue, o abandonaram, todos. O pastor fora ferido, as ovelhas, foram dispersas. E dos seus, mais chegados, mais queridos, amigos e discípulos, dois ou três, quem sabe, mais um ou dois, se atreveram a observar os acontecimentos, ainda que, ocultos pela multidão, e assistiram assim, sua condenação insana, o seu suplício lento , e a sua morte inglória.
Cenas terríveis de se ver, até os céus se recusaram mirar, um véu de escuridão encobriu o sol, não permitindo que seus raios refletissem parte daquele tormento. A sensibilidade que faltava aos olhos humanos, ao serem capazes de sustentar a visão de tal desatino, não era negada a natureza, e ela se cerrava, incapaz de contemplar. E nesse instante da história, pela primeira e única vez em todo registro da eternidade, a Vida se afastou da Vida. Não pela força da morte ou poderes do mal, não pela vitória aparente das trevas ou qualquer outra conseqüência inevitável, mas... tão somente, pelo amor. “ Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho unigênito...”