Drogas, Um
Caminho de Dor
Ele foi erguido do chão como um galho
seco.
E como
outros galhos ele foi arrastado.
Os que o
ergueram não perceberam, não perceberam que, o que fazia seu corpo tremer não
eram calafrios causados pela ânsia e pela necessidade física de uma última
dose, de uma picada talvez.
Ninguém
sequer notara que o que fazia seu corpo agitar-se como se uma febre o
consumisse, era uma simples, mas violenta comoção. Que vinha do mais profundo do
seu ser, que o fazia derramar-se como um menino, em prantos e soluços , ao
olhar para os corpos, que como o dele, eram carregados.
Seus amigos,
queridos, companheiros, amados.
Chorando na
alma, ele falava consigo;
- Éramos
pequenas flores, nascidas em jardins, aprazíveis ou não.
Éramos
pequenos nobres, a viver cheios de alegria e vida, no pulsar maravilhoso, de um
anseio natural e vivo dentro de nós. E como crianças que éramos, celebrávamos
cada momento a vida e a beleza de todas as cores, de todos os sons, das
infindáveis descobertas, dos espantos que nos paralisavam, dos folguedos que
nos enchiam de prazer.
Recebíamos e dávamos amor na proporção em que nos era ensinado o valor
de tal sentimento e sobre a vereda onde ele poderia florescer.
No entanto, em algum canto esquecido
e escuro deste imenso castelo de sonhos, no qual crescíamos, fomos
surpreendidos e nos deixamos levar. Seduzidos por uma suave brisa, que nos
acariciou, enquanto mentia sobre a realidade de nossas limitações, enquanto nos
alimentava com doces doses de veneno, e que, finalmente, ao percebermos que nos
faltava algo no qual nos equilibrar, lançou sobre nós toda a fúria de sua real
personalidade.
Não era uma brisa, era um vendaval.
E fomos arrastados por correntes que
nossas próprias mãos seguravam. E ficamos como que achatados. Vermes desprezíveis, indesejáveis, fugindo
dos olhares que nos miravam compassivos, mas que refletiam dentro de nós o que
realmente eram.
Açoites á castigar nossa derrota.
Entorpecidos e desabados em nosso
resquício último de vontade e vigor, nos permitíamos tão somente subir nas
escarpas doloridas de nossas lembranças, fechar os olhar, e só então olhar.
Olhar o tempo que
nos empurrou e nos empurra, ver quebrados em suas ondas algo que já foi um dia
em nós, renovo.
Olhar entristecido os fragmentos,
dos sonhos, dos desejos esquecidos, que vagando agora, nas ondas silenciosas
dos dias já passados, nos fazem chorar e cerrar os olhos envergonhados, pois,
nos acenam os fragmentos e em suas mortalhas parecem chorar conosco, enquanto
pensamos vir deles a voz de lamento. É, no entanto, dentro de nós, que num
campo esquecido, onde guardados como desterrados perpétuos, nosso próprio
sangue e nossa própria vida, esperam, mortalmente silenciosos, como epitáfios
numa tumba desconhecida.
Esperam um sono que não chegará.
E vagamos então entre as lápides que
apontam nossas mortes, ornamentando com as flores da autocomiseração as vítimas
do nosso próprio medo.
E olhamos à nossa volta, buscando sem
esperança de encontrar, uma força amiga que nos faça erguer para um novo dia,
uma nova chance para começar de novo. Sem as amarras do passado, que nos tornam
fracos, sem a expectação mórbida do futuro, que nos faz vulneráveis.
E em nossas
mentes, constantemente atormentadas pelas sentenças proferidas em cada olhar que
nos observa , procuramos achar algo ou alguém sobre o qual lançar a cada dia o
enorme peso que nos esmaga, sem, contudo, ao aponta um alvo, sentirmos descanso
ou alívio na alma.
Ao percebermos que as vozes, as
imprecações, os risos, o desprezo, os vereditos mascarados, mas, impiedosamente
condenatórios e todas as formas mímicas e verbais de tortura se encontram e
fazem morada na arena camuflada de nossa sanidade.
Então voltamos vencidos, aos cantos escuros dos nossos castelos de
sonhos e nos deixamos mais uma vez seduzir.
Esperando inconscientemente sonhadores, que seja a última carícia, que
seja o último prazer.
Pois há uma
porta fechada.
Nós não
sabemos como abrir.